quinta-feira, 2 de junho de 2011

Thy Hands Will Keep Me From Now On

Fui ter com o Joel e o Rui a uma das esplanadas pequenas do Princípe Real para lhes mostrar as músicas que tinha composto. O Rui escrevia as letras e era pianista, e o Joel era vocalista da banda que estávamos a formar. Eu era guitarrista e estava encarregue de compôr. Estava já a entardecer quando me sentei com eles. Tomámos café. Depois, eu tinha à frente folhas com as letras do Rui, e ia tocando o que tinha composto, dando indicações ao Joel de como deveria colocar a voz. Nunca discutíamos muito. Sentou-se na mesa atrás de nós, de frente para mim, um rapaz muito bonito. Tinha os olhos quase pretos, o cabelo quase liso castanho penteado para a esquerda, um nariz direito e uma boca de que se destacava o lábio inferior, muito carnudo, entre a barba rala castanha. Pareceu-me que ele olhava para mim, mas não podia dar muita atenção, porque tinha que explicar ao Joel como cantar o que eu tinha composto na guitarra, que segurava sobre as pernas, e ia tocando trechos soltos, para o acompanhar.
Quando me levantei, já era quase meia-noite. Levava a guitarra dentro do estojo às costas e deixei as partituras ao Rui, para se ele quisesse trabalhá-las.
Ia a andar, para a Rua da Escola Politécnica, quando reparo que o rapaz da esplanada estava também a andar, não muito longe de mim. A certa altura, ouvi-lhe um sussurro e, pouco depois, ele estava mesmo ao meu lado e parecia querer falar comigo
_Ah... desculpa.
_Sim, diz. -ele ficou parado, hesitante, mas eu não me mostrei impaciente.
_Eu... ah... eu estava a ouvir as coisas que vocês estavam a tocar. Era só para te dizer que gostei muito das letras que escreves.  -eu ri-me brevemente. Depois, sorrindo ainda, disse-lhe
_Não sou eu que escrevo as letras. Aquele meu amigo de cabelo comprido é que escreve. Eu só componho.  -ele ficou como sem ar, gaguejou e a mim pareceu-me que ele estava a tentar arranjar palavras para não deixar aquela conversa morrer ali. Olhei-o, e vi como ele era ainda mais bonito quando visto de perto, e percebi também que devia ser um rapaz forte, ainda que não musculado, e era bom, já que eu não gosto de rapazes muito magrinhos  _Mas ainda bem que gostaste. É sempre bom ouvir isso.
_Gostei mesmo.  -disse ele, enquanto recomeçávamos a andar. _Vocês dão concertos?
_Ainda não. Só temos seis canções compostas e ainda estamos à procura de um baixista e de um violinista. -ele acenou com a cabeça e ficou outra vez atrapalhado, por não saber o que responder.
_Vais apanhar o autocarro? -perguntei.
_Sim. O 676.
_Eu apanho o mesmo, vivo perto do cemitério.  -depois disso, apresentámo-nos e fomos conversando calmamente, se bem que cada vez mais eu estava a imaginá-lo nu, o que só podia ser excitante dado aquele corpo todo forte. Além disso, há quase duas semanas que não fodia e estava com uma vontade daquelas, porque chega depressa a altura em que bater uma já não resolve nada. Enquanto ele falava, eu percebia que seria muito difícil que aquela conversa terminasse de outra forma que não nós dois a foder.
Encostei a minha perna à dele. De repente, ele  pousou-me a mão, ao de leve, na minha perna. Mas não parou de falar. Aliás, conversava no mesmíssimo tom de antes. Contava-me que a sua cantora preferida era a Emiliana Torrini, de quem eu também gostava. E explicava-me da sensualidade que encontrava na música dela. Ao dizer a palavra "sensualidade", apertava-me um pouco mais a perna, como que certificando-se de que eu não perdia o sentido do que isso significava.
Quando o autocarro parou junto do cemitério, eu disse-lhe que tinha que sair e convidei-o a vir comigo.  Aceitou. Enquanto eu abria a porta do prédio, ele olhava para o muro do cemitério. Parecia querer dizer alguma coisa sobre aquilo, mas não dizia. Olhava e olhava. No elevador, decidi aproximar-me dele. Por alguma razão, contrariamente ao que é meu costume, não o beijei logo à força. Aproximei a boca da dele e os nossos lábios tocaram-se levemente. Parecia que percebíamos bem o que era essa "sensualidade" de que ele falava.
Já lá em cima, acendi um charro e fumámos os dois. Ele passava os olhos pelas minhas guitarras e perguntou-me se eu sabia tocar alguma coisa da Torrini. Disse-lhe que me lembrava vagamente do "Dead Things" e ainda tentei tocar um pouco, mas a memória que tinha da pauta já estava um pouco enferrujada. Disse-lhe que procuraria mais tarde a partitura, que tinha arrumada algures, e que, depois, tocaria para ele. Sem dar conta, acabara de fazer uma promessa de futuro, que era algo que eu nunca fazia, com ninguém. Fiquei a sentir-me estranho com aquele deslize, mas a parte estranha foi que ele pareceu reparar nisso. Aproximou-se de mim, sorrindo abertamente. Começou a acariciar-me. Como a dizer-me que não me preocupasse, que não interessava. E assim o tesão voltou.
Quando finalmente acordámos, era madrugada. Deixei-o ficar a dormir, na minha cama, e fui à sala. Pela janela, via-se o cemitério. Sentei-me na mesa, de frente, a fumar um cigarro, ainda nu. Tinha uma pauta em branco à minha frente mas, pela primeira vez na vida, apeteceu-me escrever uma letra. Nunca tive jeito para escrever, mas naquele momento, tinha que o fazer. E já tinha o título da canção: "Thy Hands Will Keep Me From Now On".

1 comentário:

  1. Gostei do blog! De uma olhada no meu: http://etqerotika.blogspot.com/

    ResponderEliminar